«aberração ortográfica e erro grosseiro» [M.C.V, jornal “Público”]

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Nunca, aparentemente, um acaso fotográfico traduziu, com tanta flagrância e com tanta precisão, o estado do ensino em Portugal, especificamente do ensino do Português, resultante da incapacidade dos inúmeros Ministros da Educação em intervir, com seriedade e empenho, nas causas deste caos, já estafadamente enunciadas. Com efeito, bastou um pormenor de uma imagem para espelhar a situação. Refiro a ilustração da recente notícia «Nuno Crato tornou-se um «gestor» da falta de recursos» (Público de 31.10.2012, pág. 6), na qual o Ministro da Educação, emoldurado numa sala de aula do 1º ciclo, tem por detrás de si um quadro, preenchido com um trabalho de Língua Materna, especificamente de gramática (classificação morfológica dos vocábulos de uma frase). Para além da aberração ortográfica que é ver «Setembro», escrito com minúscula, anulando-se a sua categoria de substantivo próprio, com justeza, aplicada aos meses do ano, ou «adjectivo», sem a sua consoante muda (à luz do mentecapto AO 90), verifica-se ainda, já sem surpresa, confesso, que «alegria» passou, repentinamente, de substantivo abstracto para adjectivo, tal como está escrito, pelas mãos de uma criança, assim ensinada a fazê-lo, no referido quadro. Erro grosseiro inadmissível e, com ironia, associado ao Ministro da Educação, em visita a uma sala de aula do 1º ciclo, coluna de todo o Ensino.

Revejam, s.f.f., a referida imagem, indesmentível da mediocridade, da ignorância e da incompetência que reinam não só na Escola, mas em tudo!

Maria do Carmo Vieira

[Imagem de jornal “Público”, notícia com o título «Nuno Crato tornou-se um “gestor da falta de recursos”». Este texto foi publicado na secção “Cartas à Directora” daquele jornal em 04.11.12. Link disponível para assinantes.]

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12 comentários

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  1. Como gere um insciente a própria falta de recursos?
    Cumpts.

  2. Gosto muito de se tembro ou tubro. No entanto, prefiro a gosto.

    • Hugo X. Paiva on 4 Novembro, 2012 at 20:37
    • Responder

    Sei que nunca terei o que procuro
    E que não sei buscar o que desejo
    Mas busco, insciente no silencio escuro
    E pasmo do que sei que não almejo

    F. Pessoa

    • Acácia on 4 Novembro, 2012 at 22:14
    • Responder

    Que vergonha!
    Os autores das TLEBs, conjuntamente
    com os autores do mentecapto AO [bem aplicado, Dra M.C.V. Aliás todas as suas palavras são de Ouro] além das penas aplicadas, deveriam devolver todo o dinheiro que ganharam
    neste triste episódio. Ficarem (sujeito nulo subentendido) uns tempinhos à chuva, sem agasalho e sem recursos de escrita, só lhes faria bem. Talvez acalmassem as mentes provocadoras.
    Ó clemência!
    Pasmo! Como foi possível, nós, os portugueses, termos permitido uma evasão de sujeitos nulos e outras ignomínias a/gramaticais? E termos silenciado o roubo de uma noção abstracta, por parte de uma adjectivação?
    Fala (adaptação) de Ribeirinho no filme O Pai Tirano.

    “Oh inclemência! Oh martírio! Vedes e escutais a periclitante saúde deste nobre e querido Português que me ajudou a crescer?”
    É preciso agir!
    Cumprimentos

    • António Dias on 4 Novembro, 2012 at 23:55
    • Responder

    O triunfo da mediocridade e estupidez está bem patente nesta imagem do ministro com um pano de fundo tão deprimente. Ainda para mais sabendo que este ministro é (ou era, ou foi, ou foi e ainda é, ou foi e já não é, ou será e não veio a ser…) contra o acordo ortográfico. Ainda para mais sabendo que este ministro é supostamente uma pessoa inteligente e que sempre defendeu o rigor e o valor do conhecimento (lembro-me das suas excelentes crónicas no Expresso, antes de este ser Exprêsso).

    Enfim, tal como a maioria dos seus colegas deve ter comido alguma coisa que lhe afectou o discernimento (dieta de ministro).

    A mesma dieta também tem efeitos na falta de vergonha que aparenta.

    • Pedro Marques on 5 Novembro, 2012 at 1:18
    • Responder

    Perdão que eu sou muito lento, e muito burro, o que é isso da língua materna? Foi mais alguma coisa que mudou na disciplina? E desculpe Professora Maria mas não é só o Acordo que é uma aberração, essa coisa que aparece no meio da fotografia, que apoia estas políticas nazis e dá a cara por elas, também é uma aberração e um atentado à língua portuguesa, à educação, e a tudo. Também essa história do primeiro ciclo me desagrada, mas enfim, acho que neste momento não há nada que me agrade no ensino em geral, a começar pela cobardia da maioria dos professores que não viram as costas às obrigações de imposições ilegais. O que é mau, é sinal que não têm coragem, que têm medo.

    • Maria do Carmo Vieira on 5 Novembro, 2012 at 18:58
    • Responder

    Peço-vos que leiam ‘«alegria» passou’, e não liguem à vírgula, ali bizarramente exposta, que se encontra no texto (em «alegria»).
    Obrigada e pelo «mau aspecto», as minhas desculpas.
    Maria do Carmo Vieira

    1. A vírgula está no original recebido por email. Foi agora apagada nesta versão.

    • Maria do Carmo Vieira on 5 Novembro, 2012 at 20:27
    • Responder

    «O bizarramente exposta» só tinha a ver comigo e de modo algum com o texto aqui publicado e que obedeceu ao original. Daí pedir desculpa pelo « mau aspecto». Não é ignorância, mas aconteceu e daí o tal «bizarro». Obrigada pela correcção.
    Maria do Carmo Vieira

  3. Eu vejo no quadro que ‘criança’ é ‘nome’. Nome?! Então, ‘criança’ não é um substantivo?!…
    Bem, no meu tempo era… Mas eu devo estar ultrapassado.

    • Maria do Carmo Vieira on 5 Novembro, 2012 at 23:53
    • Responder

    É evidente que é um substantivo, mas a TLEBS impôs «nome» e a Escola obedeceu. Assim como devemos ser resistentes a este AO, devemos resistir à TLEBS e preocuparmo-nos em ensinar aos nossos alunos a velha Gramática.
    O mal está nesta orgia de inovação que teima em persistir em espectáculos diários, perante os quais os ignorantes se extasiam.
    Maria do Carmo Vieira

  4. Uma das formas de resistir à aberração que é o Aborto Gráfico é, simplesmente, contunuar a escrever correctamente.
    E, já agora, ler (só quando é necessário) as aberrações como devem ser lidas. projeto – projêto; aspeto – aspêto; direto – dirêto; inspetor – insptor; diretor – dirtor… e (infelizmente) centenas e centenas de outras!… Assim expondo o ridículo e absurdo do infame AO90.

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