Mas eu cá pronuncio isso…

b) Eliminam-se nos casos em que são invariavelmente mudos nas pronúncias cultas da língua:
ação, acionar, afetivo, aflição, aflito, ato, coleção, coletivo, direção, diretor, exato, objeção;
adoção, adotar, batizar, Egito, ótimo;

[Acordo Ortográfico, Base IV , Das sequências consonânticas, parágrafo 1º – b)

Não virá nenhum mal ao mundo – nem à luta contra o AO90, propriamente dita – que as pessoas se vão recusando a usar o acordês no seu dia-a-dia. Em especial para professores, formadores ou educadores em geral o expediente pode bem resultar sem consequências de maior ou até sem nenhumas.

Em suma, é tudo uma questão de usar as “determinações” e as “regras” do próprio acordo para… não o usar nunca. Bastará para isso passar a pronunciar expressamente as ditas “consoantes mudas” que, por conseguinte, deixarão imediatamente de ser… “mudas”: aCção, direCtor, exaCto, EgiPto, etc.

Assim, eliminando na oralidade (e apenas para o efeito) “os casos em que são invariavelmente mudos”, passará a ser perfeitamente legítimo – e completamente “ao abrigo do AO90” – grafar esses mesmíssimos casos tal e qual como se pronunciam; variavelmente, é certo, ou seja, apenas nós e mais umas quantas pessoas (ninguém saberá ao certo quantas) pronunciarão as tais “consoantes mudas”, mas o caso é que então já não haverá aquele “invariavelmente” a atrapalhar o caso. E note-se que não existe nenhuma lei, determinação ou sequer regra que nos possa impedir de as pronunciar; aliás, como sabemos, há por aí muita gente que pronuncia algumas ou todas elas, sempre ou apenas em algumas ocasiões.

Por outro lado, atendendo a que nos estamos a referir ao uso da Língua em ambiente escolar e no âmbito do Ensino, é claro, então isto enquadra-se completamente no “universo” referido e no âmbito previsto, ou seja, nas “pronúncias cultas” da dita Língua. E assim removemos o último escolho postulado por esta fundamentalíssima “regra” do “acordo ortográfico”, o que, em suma, significará que poderemos – sem qualquer problema e cumprindo na íntegra as determinações do próprio acordo – continuar a escrever em Português correcto.

Estamos à vontade, assim sendo, e de mais a mais se atendermos a que não está previsto qualquer regime sancionatório por incumprimento do AO, para contornar ao menos esta “regra” fulcral. Quanto às outras, como as que se referem a hifenização e a acentuação, por exemplo, bem, se calhar será uma questão de se analisar em pormenor as respectivas alíneas, uma a uma, a ver o que se poderá arranjar para da mesma forma lhes dar a volta.

Competirá a cada qual, como é evidente, no seu local de trabalho e atendendo ao regulamento disciplinar aí vigente, acautelar quaisquer eventuais problemas que por via disto possam surgir. Este acordo não é uma verdadeira lei, já que não prevê regime sancionatório, mas outra legislação avulsa ou regulamentos conexos podem vir a ter implicações que são, hoje por hoje, totalmente imprevisíveis.

Cuidado com isso, por conseguinte, mas também, que diabo, haja hombridade! Esta é só mais uma achega, algo que pelo menos alguns podem ir fazendo no seu dia a dia.

A luta é contínua e continua!

[“Post” publicado originalmente em “Notes” do Facebook.]

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3 comentários

  1. Sim senhor. Esta é uma forma; pronunciar consonanticamente as consoantes consoante elas existam no cânone do idioma. Assim e desta maneira legitimo desde já o «c» de «diccionário» e de «aflicto». – À atenção dos diccionaristas malaquenhos iltequianos e quejandos: eu digo «diccionário» porque digo «dicção» e digo «aflicto» porque digo «aflicção». E digo «aflicção» porque aprendi com Eça e Machado de Assis, e eles bem sabiam.
    Doutra forma pronuncio sonora e invariavelmente (sonora e invariavelmente, repito) todas as consoantes etimológicas que a basezinha IV canibalescamente decepa dos vocábulos apresentados. Pronuncio eu – e invariavelmente toda a população portuguesa -, ora ouvide: acção, baptizado, director, &c.
    Quem não ouviu as vogaizinhas antetónicas bem abertas é surdo, ou tem cera nos ouvidos.

    • Daniel Vieira on 2 Setembro, 2011 at 14:08
    • Responder

    Não estou a ver pessoas com o juízo perfeito pronunciar, no discurso do dia-a-dia, as consoantes mudas. Se é um facto que se lê o “C” desta última, ninguém vai andar por aí a dizer “O direquetor da minha empresa, fez uma ópetima aqueção, quando detequetou o erro, aquetuando em conformidade”. Para muitos, até a palavra “orthographia” ficava como assim a escrevi…

  2. E ficava muito bem.
    Cumpts.

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