«Espetados na escrita» [Nuno Pacheco, Público] #AO90

Quem gosta do Acordo Ortográfico deve andar feliz. Num repente, jornais e revistas adoptaram o novo jargão, cuidando de que assim se tornariam mais modernos. Mas não se vê nenhum entusiasmo na opinião pública. As cartas que vão chegando, por correio tradicional ou electrónico, os comentários online, os textos nos blogues, tudo surge à antiga (quando não chega simplesmente mal escrito, com erros que dispensam acordos), enquanto do lado de lá das trincheiras se dá o martírio silencioso das consoantes.

No primaríssimo opúsculo “Atual”, dado à estampa em 2008, os seus autores Malaca e Dinis garantiam que “o novo Acordo Ortográfico apenas afeta [sic] a grafia da escrita e não interfere de modo nenhum nem nas diferenças nem orais, nem nas variações gramaticais ou lexicais”. Ora na página 15 diz-se que eléctrico passa a “elétrico” e espectáculo a “espetáculo”. Mas diz também que, “nos casos em que a consoante se articula, teremos, pois, a sua manutenção”. Exemplos: “bactéria”, “compacto”, etc. Mas se ninguém diz “batéria” ou “compato”, será que alguém diz “espetador”? Não, é claro. Pronunciamos “espéktador”, tal e qual. Sucede que alguém, por excesso de zelo ortográfico, resolveu ir mais além. Veja-se este despacho da Lusa, um entre muitos: “As duas primeiras jornadas da Liga portuguesa de futebol tiveram menos cerca de 14.000 espetadores na bancada.” Não é caso único: esta agência e, com ela, os jornais e revistas que usam os seus textos sem mudar uma vírgula também descobriram “espetadores” na Red Bull Air Race, no último filme de Danny Boyle, no automobilismo de Vila Real, no Festival do Sudoeste, até numa corrida de touros em Navarra – onde há “espetadores”, sim senhor, mas não costumam estar nas bancadas, estão na arena. Espetam bandarilhas e até espadas, não se dê antes o azar de o touro lhes espetar um desembolado corno.

O mais caricato de tudo isto é que, no Brasil, de onde supostamente partira a mania de atirar fora consoantes como quem descasca amendoins, ninguém escreve “espetador”. É verdade. Lá, onde se pronuncia “ispétadôrr”, escreve-se, e bem, “espectador”. Nós por cá, à cautela, preferimos a boa e velha via do analfabetismo. Que agora até tem um pretexto legal. Querem saber se um texto é escrito de acordo com as novas normas? Tirem-lhe consoantes. Não importa porquê nem a que custo. Umas consoantes a menos e aí está o vero texto. Cheio de “ação”. Muito “atual”. Definitivamente “correto”.

Mas a relação “espetáculo”/espectador também tem que se lhe diga. Como é possível fazer derivar a palavra “espectador” (bem dita e bem escrita) da palavra “espetáculo”? Como explicar nas escolas tamanha incongruência? Onde vai a palavra derivada buscar o “c”? Apenas à pronúncia? Ou à raiz antiga entretanto adulterada e desfigurada?

Se o disparate pagasse imposto, o Acordo de 90 chegava para liquidar a dívida pública. Como não paga, os liquidados somos nós e a língua.

Espetados contra essa parede de erros e misérias a que uma trupe de inomináveis malabaristas resolveu chamar lei.

Nuno Pacheco, Director Adjunto

[transcrição integral (manual) da crónica publicada no jornal Público de 18 de Outubro 2010]

Nota 1: este texto não está disponível online, a não ser para os assinantes do jornal; foi aqui transcrito dado o seu evidente interesse público.
Nota 2: esta publicação segue assim mesmo, sem revisão; logo que possível, poderá haver uma ou outra correcção, em função de conferência com o original.

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8 comentários

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  1. Creio que ao falar sobre as regras ortográficas de um país, é preciso, em primeiro lugar, saber um pouco do assunto. No Brasil, onde o autor define como nação que “retira as consoantes como quem descasca um amendoim” (?), escreve-se ESPECTADOR pois pronuncia-se “es-pec-ta-dor”, com o som da consoante “c” ! ESPETADOR seria aquele que espeta, usando um espeto. Por isso, a necessidade de manter o “c” de espectador. Simples assim. Foram suprimidas as consoantes MUDAS, as que não são faladas no território brasileiro (ação, fato, correto etc).

  2. «Foram suprimidas as consoantes MUDAS, as que não são faladas no território brasileiro (ação, fato, correto etc).»

    Exacto. “No território brasileiro”. Muito “simples assim”, mesmo, de facto.

    • Paulo Jorge Assunção on 27 Outubro, 2010 at 2:35
    • Responder

    Ana, o ue o autor do artigo diz é: “O mais caricato de tudo isto é que, no Brasil, de onde supostamente partira a mania de atirar fora consoantes como quem descasca amendoins, ninguém escreve “espetador”. ”
    Portanto, se a Ana tivesse lido com atenção, teria percebido que o uso da palavra “supostamente” (não estava atenta, pois não…?) inverte o sentido da frase, ou seja, o autor está, precisamente, a afirmar que, no Brasil, o uso e o não uso das consoantes obedece a um critério nacional, o qual não é, certamente, o de lançar fora as letras, “como quem descasca um amendoim”.
    Seria, portanto, desnecessária a observação “Creio que ao falar sobre as regras ortográficas de um país, é preciso, em primeiro lugar, saber um pouco do assunto.”, cujo tom irónico não se coaduna com a seriedade do artigo.
    É óbvio que o autor sabe bastante do que escreve.
    E não vale a pena fazer disto uma guerra Portugal-Brasil, porque a língua portuguesa, com duas grafias nacionais (que, aliás, continuarão a ser duas, mesmo com o disparatado acordo…), tem sobrevivido muito bem.
    Só lamento que quem não gosta de Portugal não faça o grande favor de nos deixar em paz. Poderiam ir para Espanha, por exemplo. Acabava o desemprego e o analfabetismo, tudo de uma assentada. Lá se ia a crise!…

    • Ricardo Azevedo on 8 Novembro, 2010 at 19:42
    • Responder

    Então porque vocês não devolvem o ouro que roubaram dos índios brasileiros? Devolvam suas famílias exterminadas e suas terras roubadas, depois podem ficar com sua língua Portuguesa da maneira que lhes convier. Bobos.

    1. Neste site toda a gente é livre de comentar o que e como entender. Pode até, desde que não use de linguagem grosseira, esparramar as mais inacreditáveis baboseiras que lhe der na real gana, como é o evidente (e espectacular) caso deste seu chorrilho de disparates.

      O que não significa, necessariamente, que deste lado alguém se disponha à tarefa insana que seria responder a perfeitas imbecilidades como as suas. De facto, não há cá ninguém que se dê a essa tão inútil quanto desnecessária tarefa. Aliás, por regra, o paleio de chacha (aquele que não tem sequer ponta por onde se lhe pegue) diz tudo sobre quem o profere e sobre aquilo que o dito paleio significa: nada.

    • Manuela Gonçalves on 8 Novembro, 2010 at 23:54
    • Responder

    O comentário do Ricardo Azevedo tem um um graaaaaande conteúdo histórico.O presidente Lula deve estar feliz com um cidadão assim.

    • Ricardo Azevedo on 9 Novembro, 2010 at 11:07
    • Responder

    Como a verdade é incomoda para algumas pessoas, podem ficar com o ouro e as terras, mas ao menos nos deixem em paz com nossa língua Tupi-aportuguesada latino-americana norte-americanizada, e procurem outras coisas para fazer, como por exemplo doar metade de suas riquezas aos mais pobres, talvez você tenha salvação.

  3. Toda mudança exige uma fase de adaptação e por todas as partes envolvidas. Nesse caso exato, as populações de todos os países envolvidos.

    Se por um lado tem todo o fator cultural de cada país que faz com que grande parte dessas populações não gostem de tais mudanças, por outro lado não faz sentido varios países falarem o mesmo idioma e ter diferenças na grafia.

    Eu mesmo fui atingido por isso, quando lancei meu site Colmeia Web, colmeia tinha acento e é assim que está na logomarca, já na loja Colmeia Web, colmeia já escrevia assim, porém deixei a logo original e até agora não decidi se vou mudar; mas mesmo assim sou a favor da revisão

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