Consoante muda (Público) #AO90

Consoante muda

“Os otimistas falam em salvar a democracia”. Abria com estas palavras, na última página da edição de 5 de Maio passado, a coluna de opinião de Rui Tavares, que dá pelo nome significativo de “Consoante muda”. No mesmo dia, um leitor de Lamego enviava-me uma mensagem intitulada “Ortografia e senso comum”. Não estranhem os leitores que refira agora uma carta recebida há cinco meses. O seu tema — que suscitou um esclarecimento na altura pedido à direcção do jornal, mas cuja publicação neste espaço fui adiando face a outras prioridades — continuou, em alguma da correspondência que recebo, a ser objecto de dúvidas que valerá a pena esclarecer.

O caso é que a falta da consoante muda na palavra “otimistas” caiu mal ao leitor Pompeu Barros Viseu, que concluiu precipitadamente (ou, como julgo pelo teor da mensagem, fez de conta que concluíra…) que o colunista não teria “tido a suprema fortuna de ter frequentado uma boa escola primária”, pois nesse caso “saberia que ‘óptimo’ se escreve assim mesmo”, e “se, além disso tivesse feito o liceu, saberia que a palavra vem do latim ‘optimus’, superlativo de ‘bonus, bona, bonum'”. Admitindo que os defensores do acordo ortográfico acharão “que escrever ‘ótimo’ é um ‘ato’ ‘correto'”, este leitor de Lamego propunha “um armistício”: “Nós, os que amamos a bela língua de Camões e Bernardim, calamos a boca e continuamos a escrever correctamente”, e “em troca”, o PÚBLICO faria “o favor de enviar o sr. Tavares a lançar a sua prosa nos periódicos de Jacarépaguá, de Inhambane, do Rovuma “.

Inclinados ou não a saborear a escrita que envolve tal proposta de “desterro”, os leitores terão já compreendido que o autor da reclamação desconhecerá (ou fará por desconhecer) que Rui Tavares escreve, por opção própria, de acordo com as normas do novo (e controverso) acordo ortográfico. Como o facto terá escapado a outros leitores, a quem, por exemplo, a queda da consoante muda em certos textos de opinião do jornal continua a causar estranheza, pedi à direcção do PÚBLICO para explicar a sua política nesta matéria.

Respondeu-me o director adjunto Nuno Pacheco: “A política do PÚBLICO face ao Acordo Ortográfico é clara: não será aplicado enquanto tal for possível. Essa posição foi defendida, em tempo oportuno, em editorial. Tal como se apresenta, o Acordo é um acto (não um “ato”) que devia envergonhar os que o assinaram, além de não contribuir para uma pretensa unificação da língua, quimera que jamais se fará à custa do sacrifício de um punhado avulso de consoantes. O acordo é uma mistificação e um embuste, já denunciados de várias formas no espaço público, e assume características meramente políticas e de um oportunismo inqualificável. Dito isto, se no espaço noticioso o jornal mantém como regra não acatar tal acordo enquanto tal for legalmente possível, já no espaço de opinião, que é um espaço livre por excelência, aceitámos que os dois únicos colunistas a solicitar o respeito pelo Acordo o pudessem fazer. Vital Moreira e Rui Tavares, enquanto assim o entenderem, respeitam a nova grafia. Como é óbvio, para quem os ler, mal se nota. Por cada texto afecta umas cinco a dez palavras, no total. No entanto, se os textos que ambos escrevem se destinassem, por exemplo, a ser publicados num jornal brasileiro, teriam que mudar muito mais do que isso para se fazerem entender correctamente. No vocabulário, no uso dos verbos, na construção das frases, etc. Basta pensar nesta mera hipótese para entender até que ponto vai o português ‘unificado’ em que nos querem fazer acreditar…”.

Fica dada a explicação. A política do jornal neste domínio não oferece dúvidas. Foi anunciada na edição de 30 de Dezembro do ano passado. Não sendo claro que possa ou não vir um dia a ser reequacionada (a fórmula usada por Nuno Pacheco, segundo a qual o acordo “não será aplicado enquanto tal for possível”, deixa essa questão em aberto), seria interessante saber se ela é, ou não, do agrado da maioria dos leitores. Entretanto, poderá discutir-se se não seria útil, em atenção ao leitor desprevenido, fazer acompanhar as crónicas de Rui Tavares e Vital Moreira da explicação de que escrevem de acordo com a nova grafia, tal como fazem, em sentido inverso e em relação aos seus colunistas, algumas publicações que adoptaram o normativo do acordo ortográfico.

José Queirós

Transcrição integral de artigo publicado no jornal Público de 10.10.10. Ver AQUI. Realces nossos.

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2 comentários

  1. Tudo que leio desse tal pompeu barros me cheira a salazarista.

    • Alves Pereira on 10 Dezembro, 2011 at 10:34
    • Responder

    “Não sendo claro que possa ou não vir um dia a ser reequacionada (a fórmula usada por Nuno Pacheco, segundo a qual o acordo “não será aplicado enquanto tal for possível”, deixa essa questão em aberto), “…

    Gostaria que me explicassem em que circunstância(s) é que tal deixaria de ser possível.
    Que vão fazer essas iluminárias? Prender Nuno Pacheco? (bem-haja ele pela verticalidade e portuguesismo) ou os leitores do jornal?
    Passaria este a subversivo? Andamos mesmo metidos com uma cáfila de idiotas de contornos macaco-casteleiros e mais bichosa que eu sei lá.
    Querem ver que eu TENHO que deixar de dizer facto, telespectador expectativa ou peremptório??? Como diz o outro, a mim (nós) ninguém me cala. Ou teremos de volta a Lei da Rolha?????
    Um pouco mais de juízo, não lhes faria mal nenhum.
    Cumpts

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