«Uma questão actual» [Alberto Gonçalves, DN]

Uma questão actual

Todos os portugueses sabem que, excepto pelas costas, não se diz mal dos amigos e conhecidos. Felizmente, devo ter uma costela estrangeira e não me sinto obrigado à regra. Quando o novo secretário de Estado da Cultura, pessoa inteligente e óptima companhia, se estreia na função a prometer que o Acordo Ortográfico será “implementado” em 2012 nos “documentos oficiais e nas escolas” dado ser “um caminho sem retorno”, eu gostaria de lembrar ao Francisco José Viegas que caminhos sem retorno também eram, ou são, o TGV, o aeroporto de Alcochete, a bancarrota, a gripe suína e o declínio do Belenenses. O trabalho de um governante consiste, suponho, em tentar contrariar as desgraças ditas inevitáveis. Aceitá-las de braços caídos tende um bocadinho para o fácil e talvez não justifique o salário.

Ainda por cima, às vezes sai mais caro, em esforço e em dinheiro, aceitar as desgraças ditas inevitáveis do que impedi-las. Na questão do AO, por exemplo, parece-me menos complicado deixar as coisas como estão do que proceder à inutilização de toneladas de papel e à revisão de gigabytes de informação “virtual” em nome de um compromisso pateta e de enigmática serventia. Vasco Graça Moura, aqui no DN, já aludiu ao prejuízo material que o AO implica, ao tornar obsoletos manuais escolares, dicionários e livros em geral. Se o objectivo do Governo eleito fosse torrar fortunas em disparates, a “implementação” do AO viria a calhar. Sucede que o momento é, ou assim nos garantem, de austeridade, por isso dói ver aumentos de impostos contrabalançados por desperdícios quantitativamente pequenos e simbolicamente desmesurados. Pior que tudo, além de tonto nos princípios e dispendioso nos meios, o AO é horroroso nos fins.

Alberto Gonçalves

[Transcrição integral de texto publicado no Diário de Notícias de 03.07.11, da autoria de Alberto Gonçalves, inserido na crónica intitulada «Alguém viu por ai um governo liberal?» e fazendo parte da coluna “Dias Contados”, assinada semanalmente por aquele autor.]

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16 comentários

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  1. Falou bonito.

  2. Não gostei de seu comentário sobre o Novo Acordo Ortográfico: o senhor bem sabe que como tudo na vida evoluí, a língua e a gramática também evoluem, apenas o homem NÃO CONSEGUE EVOLUIR NA SUA ESSÊNCIA, INFELIZMENTE, AINDA HOJE TENHO QUE LER OFENSAS E DISCRIMINAÇÕES A OUTRAS NAÇÕES, QUANDO O SENHOR SE REFERE “DEVO TER UMA COSTELA ESTRANGEIRA” , está se a qual nação estrangeira??????
    ” … e excepto pelas costas, não se diz mal dos amigos e conhecidos. Felizmente, devo ter uma costela estrangeira e não me sinto obrigado à regra. Quando o novo secretário de Estado da Cultura, pessoa inteligente e óptima … “

  3. O Sr. Alberto Gonçalves publicou um texto, não falou. Os textos lêem-se, não se ouvem.
    Falar bonito qualquer bom orador o sabe fazer, mas só isso não basta. Mais importante que isso é saber o que se diz.

  4. Sempre o mesmo velho argumento de quem é a favor do AO. Desde quando é que o AO é uma evolução? Criação de duplas grafias desnecessárias entre outros graves problemas (os quais já foram rebatidos aqui vezes sem conta) que este belo aborto ortográfico oferece à nossa língua é uma evolução?. E desde quando é que este AO é benéfico e necessário para Portugal? E as crianças mais pobres que dependem da doação de livros usados?

    • António Costa-Cabral on 4 Julho, 2011 at 8:46
    • Responder

    Isabel, as línguas evoluem, sim senhora, se não falaríamos todos latim. Mas, se analisar a história, toda ela, verificará que NUNCA evoluiu por decreto real ou republicano.
    Também não me parece que o Reino Unido irá, algum dia, adoptar o inglês falado nos Estados Unidos da América. O mesmo para França em relação ao Senegal.
    Sunscrevo inteiramente “em nome de um compromisso pateta e de enigmática serventia”. “Compromisso pateta” porque só podia, e posde, ser defendido pelos socialistas; “enigmática serventia”, não é enigmática, é ao Brasil, socialista, claro está!

    • António Costa-Cabral on 4 Julho, 2011 at 8:49
    • Responder

    Outra coisa, Isabel, qual é o problema de ter uma costela estrangeira? Eu tenho 4: holandesa, francesa, galesa e catalã. O meu filho tem mais 4: sul-americana (inca), indiana, irlandesa e espanhola.

    • Maria José Abranches on 4 Julho, 2011 at 13:25
    • Responder

    Isto deve ser moléstia contagiosa que se instalou na área da “Cultura institucionalizada” de há uns anos a esta parte, a que visivelmente escapou a Prof.ª Isabel Pires de Lima. Descobriram de repente que temos língua! E foram precisos os “milhões” de falantes brasileiros para disso se darem conta!
    «Mas desses 250 milhões, 200 milhões são brasileiros. E eles eram apenas 70 milhões em 1960. De 1960 para 2008 triplicaram, e isso significa fazer 130 milhões de falantes do português, mais do que nós fizemos em todo o nosso passado.» (P.Ribeiro)
    Brilhante! Deitem fora a História, os especialistas, os linguistas, os estudiosos, os professores, os tradutores, as escolas, as editoras, os escritores…. E proliferem! Futuro garantido!
    Agora a nossa língua (a pobre língua deixada ao abandono e que cada vez se fala e escreve pior) «encerra um potencial extraordinário que pede maior protagonismo nas políticas dos Estados membros da CPLP» (G. Canavilhas) …Mas atenção: isto está num texto escrito “ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico”… Porque sem macaquearmos a nossa ortografia, para parecer “brasileiro”, não há “potencial económico” que se aguente! Porque não promovem de vez o português do Brasil?
    É o que estão a fazer de modo encapotado. Ao menos “ousem” chamar as coisas pelos seus nomes!… E deixem o português de Portugal em paz!…
    Ainda bem que o Governo optou por suprimir o Ministério da Cultura! Pela amostra, o novo responsável pela área também lê pela mesma cartilha… E já fala por si e pelos outros Ministros: “quero, posso e mando”!

  5. Resumindo: o Brasil não tem história, especialistas, linguistas, estudiosos, professores, tradutores, escolas, editoras, escritores. Só prolifera. E, venha ele pelos aeroportos ou pelos dicionários, a culpa da situação em que estamos é sempre do estrangeiro.

    É impressionante a capacidade que tem a xenofobia de disfarçar-se e armar-se em virtuosa.

  6. aeroporto da Ota

  7. A irritação não leva ao desacordo.Coitadinha de Minas Gerais.:))

    • António V Ribeiro on 11 Julho, 2011 at 3:40
    • Responder

    Não vou contribuir para esta polémica… mas confesso-me preocupado por poder ser confundido por alguém que espeta algo (espetador) quando a minha posição é de mero espectador!

    • Pedro de la Roza on 11 Novembro, 2011 at 15:46
    • Responder

    Perdoem-me pela ignorância, mas se alguém já diz “espetador” como pode achar estranho escrevê-lo? No Brasil todos dizem Egito, portanto escrevem desta forma. Se vivemos a dizer Egi_to, não há como dizermos que tal escrita nos causa estranheza. Como achar estranho representações gráficas daquilo é falado? Devo dizer que sinto falta de escrever afliCto?

    Cumpts.

    • Afonso I on 12 Novembro, 2011 at 15:38
    • Responder

    P/ ‘Pedro da Rosa’ e ‘Tomás Rosa Boa’

    As línguas evoluem e retrocedem. O Portugues já teve +Latim, +Árabe, +Germânico, e agora +Criolo. No Norte, Terra onde nasceu a Língua Portuguesa, diz-se Egi-p-to. Concordo que: por imposição de uma comunicação social tóxica, que vê o Norte como ‘provincia’, que utiliza a pronúncia nortenha para satirizar… (-xenofobia???) alguns nortenhos dizem ‘egito’. Mas será um problema para eles resolverem. Estereótipos.

    Se não dizes ‘esp|é|ctador’ ou ‘Egi|p|to’, deves reflectir no que te levou a abdicares da essência do Português. Naquela parte do Português que está próxima das outras línguas Europeias. E é exactamente essa a razão de -regra geral- os Nortenhos falarem muito mais facilmente línguas estrangeiras do que os Sulistas. Porque falam e pronunciam o Português como deve ser. o Português correcto.

    Abraço – e não te piques! 🙂

    • Wolfgang Weber on 13 Novembro, 2011 at 20:50
    • Responder

    Digo, em primeiro lugar, que não concordo com o AO90. Palavras como ‘pára’ (verbo) e ‘para’ (preposição) são pronunciadas diferentemente em Portugal. Já no Brasil são homófonos perfeitos. Ao retirar a acentuação diferencial não se respeitou a Portugal. No entanto o Brasil também foi prejudicado em palavras com assembleia, alcateia, boia, ideia… Pois tais vocábulos até então eram acentuados considerando que apresentam ditongos abertos. E hoje? Continuam a ser pronunciados abertos, mas sem acento por imposição do referido Acordo.
    Quanto às famigeradas ‘c’ e ‘p’, ditas mudas, podemos traçar um paralelo. Em muitos casos o Brasil não as pronuncia e o mesmo acontece em Portugal. A diferença é que os brasileiros não as grafam.
    Apenas digo a todos que a população brasileira não é a culpada de tal imposição gráfica. Aliás, ninguém achou interessante ter a maneira de escrever alterada. Eu não gostei!
    Nós, brasileiros, somos diferentes dos portugueses, principalmente na origem. Em meu Estado, Rio Grande do Sul, somos majoritariamente descendentes de alemães, italianos e holandeses. Não temos antepassados portugueses. Na visão de inúmeros brasileiros, Portugal é apenas mais um país europeu. Na minha cidade (Santa Cruz) usamos mais o alemão do que o português no dia-a-dia. O mesmo se dá em outras com o idioma italiano e holandês.
    Penso que vocês devem lutar contra a nova ortografia e garanto que se houvesse uma maneira de ajudá-los eu o faria.
    Respeitosamente e com sinceros cumprimentos;

    Wolfgang Weber

    • Luís Ferreira on 13 Novembro, 2011 at 22:12
    • Responder

    Há uma maneira. É passar a informação da existência desta ILC a todos os portugueses que vivam no Brasil e tenham número de eleitor português. Muitos haverá que não têm conhecimento ainda desta iniciativa. Por isso é urgente uma grande acção de divulgação entre os portugueses.

    https://www.recenseamento.mai.gov.pt/

    Se estiverem em condições de votar podem assinar a ILC

    http://ilcao.com/docs/ilcassinaturaindividual.pdf

    Basta depois enviar por correio para o

    Apartado 53, 2776-901 Carcavelos
    Portugal

    • Luís Ferreira on 13 Novembro, 2011 at 22:13
    • Responder

    …ainda conhecimento… em vez de “…conhecimento ainda…”

    peço desculpa pelo erro.

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